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do pipo ó copo

Ponte de Prado

do pipo ó copo

Ponte de Prado

UM DIA VOU-TE ABRAÇAR.

Encostou a porta. Eram onze da noite, trovejava com intensidade e a chuva entrava, empurrada pelo vento que assobiava nas copas das árvores, alagando o chão de madeira.

Armando tinha ido para casa com as filhas; disse-lhes que ficava mais um pouco e que já iria. Mas foi ficando, sem coragem de ir, sabendo que se aproximava a hora em que teria de dizer adeus para sempre, tentando deste modo prolongar a presença da mãe, que ainda anteontem, antes de lhe ter dado o ataque, se ria com as crianças, enquanto fazia renda, sentada na cadeira de lona que o René lhe tinha trazido de Angola.

Se para muita gente o facto da capela mortuária de situar no centro do cemitério, as luzes terem falhado e o tempo invernoso, seriam motivo para se afastar, para Rosa, a chuva, o vento e a trovoada forneciam-lhe uma desculpa para ficar mais um pouco. Não tinha receios de quem lá estava em descanso eterno; os vivos esses sim é que me podem meter medo, dizia.

A chama das velas tremeluziam empurradas pelo movimento do ar que passava pelas frinchas da pesada porta, ameaçando apagar-se. De quando em quando a semi-escuridão era cortada por relâmpagos que entravam pelas vidraças de vidro fosco, cortadas em quadrados pequenos por um caixilho de ferro forjado.

E era esta luz tímida e ameaçada, que iluminava o caixão aberto, e Rosa de joelhos ao seu lado, com a mão nas mãos de sua mãe. Olhava a face serena, de quem parecia dormir, pedindo a Deus que se levantasse, lhe desse um sinal, lhe falasse; mas não. Luísa ficou para sempre imóvel, deitada com as mãos em cima do peito, segurando um terço de contas pretas.