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do pipo ó copo

Ponte de Prado

do pipo ó copo

Ponte de Prado

DAR, EU ATÉ DAVA...

O alvoroço na rua, e as pessoas a correr levaram-na à porta da “venda”, onde tinha ido para comprar massa para o almoço.

Rosa viu o fumo e pensou “é na minha casa”. Era. Atirou os socos para longe e correu descalça rua abaixo, chorando descontroladamente antecipando o pior; tinha deixado as meninas na cama.

Eram casas geminadas, novas a estrear. Ainda cheiravam ao verniz das madeiras. A vizinha, a Rosinha “pancha”, assim chamada por ter perdido 4 filhos, todos com poucos meses de idade, dizia-se pelas mamadeiras de vinho que lhes dava, despejou as cinzas do fogão, no coberto. Um pouco de vento avivou as brasas, que voaram para a “pruma” de pinheiro, e em pouco tempo as labaredas chegavam ao telhado.

Ao chegar já o primo Alberto surgia do meio do fumo, com as meninas nos braços…

- Eu vi-te a ir às compras e pensei logo que as tinhas deixado em casa. Estão bem – entregou-as e virou-se para o povo gritando – peguem em baldes homens. Ajudem!...

Quando Rosa as abraçou choravam assustadas, com o correr das lágrimas, marcados a branco na pele suja de fuligem.

As pessoas organizaram-se e tirando água do poço passavam os baldes, tentando apagar as labaredas. Em vão…

Armando chegou nesse momento e desesperado tentou entrar em casa para salvar o que pudesse, mas foi agarrado pelas pessoas; o telhado ameaçava ruir. E com estrondo caiu levantando faúlhas ao céu.

Quando os bombeiros chegaram já as chamas amainavam, alimentando a coluna de fumo que dançava ao vento em direção ao alto.

Entardecia. Armando, Rosa com a filha mais nova ao colo e outra agarrada à saia, olhavam em silêncio para o braseiro, que lhes tinha enterrado os bens e os sonhos.

Como era de costume, quando acontecia uma tragédia na freguesia, foi organizado um peditório pela comissão vicentina.

Quando bateram à porta de José Caniças: “Dar eu até dava, mas para o Armando não, que esse é rico. Tem uma bicicleta…”