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do pipo ó copo

Ponte de Prado

do pipo ó copo

Ponte de Prado

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O Desportivo () alugou uma garagem, e montou um bingo. Uma noite, resolvemos ir ver; estas coisas eram resolvidas num repente quando, depois de jantar nos juntávamos no largo do lugar e não havia o que fazer e ainda era cedo para ir para a cama.

O meu primo Zé, cantava os números, e uma vez saído o sessenta e nove proclamou “o badalhoco”, e na sala soltaram-se risos, e olharam uns para os outros, fazendo gestos de acentuação com a cabeça compartilhando um segredo, que parecia só o alcance dos iniciáticos…

E nós, olhando uns para os outros rimos também...

No alto dos nossos treze anos, acho que todos supusemos que teria a ver com raparigas e não querendo dar parte de fraco e de possível desconhecimento, o que seria imperdoável, e motivo de troça, deixámos passar em claro e ninguém do grupo inquiriu o que seria ao certo…

 

O Carlos acompanhava o pai que era serralheiro, e um dia foram fazer um trabalho à fábrica do cartão, onde se reciclava papel, e nessa noite apareceu com um monte de revistas, escondidas atrás das costas. Estavam rasgadas no meio, mas dava para folhear. Sete revistas da Playboy, todas iguais, que ele tinha escondido; uma para cada…

E foi essa revista, que viveu escondida no meu quarto por muito tempo, que respondeu às questões que fervilhavam na minha mente, e me transportou, em cem páginas, para a idade adulta. E aí descobri, o que era o tal sessenta e nove…

 

Anos mais tarde, quando fui à inspeção militar, ao chegar ao portão do quartel era-nos dada uma placa com um número que tínhamos de prender á roupa. Fiquei com o número catorze…

O sessenta e nove calhou a um moço, magrinho, mirrado, que teria pouco mais de metro e meio, e que durante os dois dias, foi gozado e humilhado por quase todos os militares do quartel, e pela face que espelhava um misto de surpresa e imbecilidade, pareceu-me, sem saber o porquê…