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Quinta-feira, 10 de Setembro de 2009
PORTUGAL-HUNGRIA

 

Na televisão passava o Portugal-Hungria, mas nenhum de nós lhe estava a prestar atenção. Eu ouvia o que o Tio Alberto tinha para dizer, com lágrimas nos olhos, prostrado no sofá. “Pode não ser hoje, mas um dia destes será”…
- Claro Tio, você bem sabe que hoje nunca poderá ser, pois eu só saio daqui depois de desatar a corda, ou chamar a policia ou o 112… desde o momento que me abriu a porta hoje nunca será.
 
Suponho que será uma história igual a muitas outras, sem nada de especial a não ser para os intervenientes, pois zangas de família são, infelizmente, porque nunca consegui compreender porquê, coisas do dia a dia, corriqueiras e banais, de tão comuns…
 
Cinco filhos, viúvo, más relações com todos eles excepto com a mais nova, que ainda lhe vai dando apoio, por entre os seus próprios dramas familiares, com um marido metido nas drogas e no álcool, os filhos e o emprego que lhe consome as tardes até às onze da noite. O Tio vendeu a casa onde sempre viveu, a um filho que com eles morava, “Por uma bagatela” dizia constantemente, e quando a Mãe morreu, começaram os barulhos, as chamadas para a policia, os casos em tribunal entre eles, tendo o velhote saído do seu meio, mudando-se para uma casa na cidade, de onde não sai, não convive… “Hoje estou aqui com um copo de água, não me apeteceu comer… tou aqui sozinho; até a mulher da limpeza, ontem me disse que não vinha mais… foi uma palavra que eu lhe disse e ela não gostou. Já lhe telefonei para desculpar, mas ela diz que não vem mais. Ainda na semana passada fui ali ao emprego do meu Fernando, ali no supermercado, mas ele pôs-me cá fora. Até uma senhora disse que não era assim que se tratava um Pai. E nem sei porquê, nunca lhe fiz mal. João, eu nunca bati nos meus filhos… A Mãe batia, mas eu nunca lhes pus as mãos.”
 
Uma hora antes tinha ligado para a minha Sogra, a chorar, para se despedir, dizendo que os filhos amanhã se o quisessem ver teriam que ir à morgue do hospital, que ontem fazia dois anos que a mulher morrera, e ia para a beira dela.
Assustada ligou para os filhos… “Ele é tolo, ele não faz isso, – diz que disse, com ar de riso – é só para chamar a atenção”, “Agora não posso, estou aqui a acabar uma encomenda que tem que seguir hoje”, o do meio nem atendeu, a mais nova estava no trabalho e tinha o telemóvel desligado…
Quando cheguei para ir buscar o Joãozinho do colégio, contou-me assustada. Perguntei onde morava, mas ela não sabia. Desde que tinha ido para Braga, o contacto tinha-se perdido um pouco. Liguei-lhe e perguntei onde morava. “Não vale a pena vires cá…” Depois de muito insistir sempre me deu a morada. Vou aí ver o futebol, disse-lhe.
 
Tinha feito uma “corda” com uns fios de antena de televisão, atados aos pés da mesa da cozinha, com um nó corrediço e encostado o móvel à janela, “Assim quando estiver aí fora pendurado pelo gargalo, a mesa trava na janela…”
 
Tenho a noção que por vezes as pessoas ameaçam o suicídio, como último acto de chantagem, para conseguirem o que querem, mas ontem fiquei com a sensação que de facto o faria, uma vez que não tendo aparecido nenhum filho, especialmente o segundo mais velho, por quem me pareceu que nutre um sentimento mais forte, se iria sentir encurralado nas suas próprias ameaças, e na sua credibilidade, e saltaria pela janela, como única saída.
 
Por volta das onze e meia, a Lurdes, a mais nova, tendo saído do trabalho, entrou pela casa dentro…
- Oh meu Pai, você que é que anda a fazer?... A chatear toda a gente…
Enquanto conversavam, desatei os fios da mesa, enrolei-os num novelo que atirei para o jardim cá em baixo. Quando fui embora meti-os no lixo…
 
publicado por JP às 12:08
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